20 de outubro de 2008

O Valor de um Amigo



Mais que um presente, amigo é uma dádiva cujo valor vem embutido na essência.

Nas noites que se alongam se a alma padece, amigo é o travesseiro onde esvaziamos a consciência para quando o dia se formar podermos encontrar o alento que vive além das mazelas.

Amigo é aquele que nos estende a mão e nos conduz com segurança sobre nossos medos e incertezas ao lugar mágico onde podemos esticar o tempo, ver o invisível dentro de nossos labirintos secretos e encontrar no âmago, o discernimento justo que nos revele as saídas.

Amigo é a metade da nossa alma que mesmo em outro corpo consegue escutar o grito do nosso silêncio, enxugar a lágrima, aplacar a dor oculta.

É bálsamo, poção curativa a gotejar solidariedade sanando e aliviando nossas dores mais profundas.

O valor de um amigo não se pesa em moedas de ouro.

Por ser um bem tão valioso é protegido nas dobras do coração onde seguro segue só atrás da linha do amor.

É a liga com o nosso eu mais secreto porque o amigo consegue ver além, muito além de nós...

Pode ser que algum dia eu encontre a palavra certa para definir com justiça e precisão o valor de um amigo.

Pode ser que eu consiga traduzir esse sentimento tão valioso e saborear meu triunfo por tê-lo feito.

E pode ser que eu me convença depois que para um amigo bastava apenas um abraço...

Amizade é o tipo de amor que vale a pena porque não se deixa impregnar de submissão, vem depurado de inveja , não adula para merecer favores, não impõe vontades nem enaltece feitos.

Amigo é o braço forte que ajuda a derrotar o nosso "Leão" a cada dia ou, na impossibilidade, tomba ao nosso lado!


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8 de outubro de 2008

Tênis ou Frescobol....



Depois de muito meditar sobre o assunto, concluí que os relacionamentos são de dois tipos:

há os relacionamentos do tipo tênis e há os relacionamentos do tipo frescobol.

Os relacionamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e sempre terminam mal.

Os relacionamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me.

Para começar, uma afirmação de Nietzche com a qual concordo inteiramente.

Dizia ele:

"Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com prazer com essa pessoa até sua velhice?

Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar."

Xerazade sabia disso.

Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte como no filme "O Império dos Sentidos".

Por isso, quando o sexo já estava morto na cama e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites.

O sultão se calava e escutava suas palavras como se fossem música.

A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma de eternidade;

é o amor que ressuscita sempre depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e os carinhos que se fazem com as palavras.

E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo:

"Eu te amo..."

Barthes advertia:

"Passada a primeira confissão, eu te amo não quer dizer mais nada".

É na conversa que nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética.

Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".

O tênis é um jogo feroz, seu objetivo é derrotar o adversário. E sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola.

Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do adversário e é justamente para aí que ele vai dirigir sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar.

O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado para fora de jogo.

Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola.

Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca.

Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la.

Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado.

Aqui os dois ganham ou ninguém ganha.

E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre.

O erro de um, no frescobol, é como uma ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir...

E o que errou pede desculpas e o que provocou o erro se sente culpado.

Mas não tem importância: começa-se de novo esse jogo delicioso em que ninguém marca pontos...

A bola: nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras.

Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis.

Ficam à espera do momento certo para a cortada.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destrui-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão...

O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento.

Aqui quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração.

O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres.

Bola vai, bola vem - cresce o amor...

Ninguém ganha para que os dois ganhem.

E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...



(Rubem Alves)