21 de dezembro de 2015

Tantos EU's



"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."
Fernando Pessoa

A vida é feita de muitos eus.

Em cada esquina aparece um e ainda nos vestimos de outros tantos.

Hoje percebo cada um que aparece e cada um que visto. Até já acho graça e reconheço que faço por ter mais alguns. Já não estranho grande coisa, até estranhar! Claro está! Há sempre a possibilidade de aparecer o improvável.

Afirmo e reafirmo que temos tantos eus quantos nós quisermos. Um em cada situação, um para cada pessoa, um em cada minuto. Vou mais longe, conseguimos, até para nós próprios, ter eus completamente distintos.

Esta realidade não é linear para o comum dos mortais, até mesmo para quem achava que os eus diferentes existiam porque a aprendizagem nos faz diferentes a cada passo e, por isso o eu de hoje nunca poderia ser o eu de amanha. Mas eu arrisco a dizer que, para além desta aprendizagem existe o que gostaríamos ou não de ser, ter sido ou feito e invariavelmente pomos em nós um bocadinho disso, como se de condimentos se tratassem, o que nos torna diferentes a todo o momento. Quantas vezes me espanto com o que sou!

Outra verdade é que gostamos de nos esconder nos vários eus  e muitas vezes entre eles.

Sim, esconder. Sei deste jogo melhor do que ninguém. “Não basta ser é preciso parecer” dizia a minha Avó. Mas eu sou de opinião de que nem sempre é preciso parecer, o ser, assim tão só, basta-me.

A partir daqui vem a loucura completa, a vida pode começar a cada segundo de uma forma diferente sendo o medo o único condicionalismo.

Não, ainda não enlouqueci, mas o meu eu louco anda ai.




Uma flor amarela é só uma flor amarela? Resposta do Mestre Caeiro a Álvaro de Campos (a propósito do conceito directo das coisas) "Há uma diferença, acrescentou. "Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas, ou como aquela flor amarela só."(....)
Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes".
Alvaro de Campos,in "Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro", pag. 40, 41- Edições Estampa.


12 comentários:

  1. Um texto excelente. É bom quando ainda nos espantamos com o nosso eu... Gostei muito.
    Desejo um Natal com muito conforto e um Novo Ano com Saúde Paz e Amor.
    Beijo.

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    1. Olá Graça, obrigada.
      Um Santo Natal também para ti e família.
      Beijinhos meus ❤️

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  2. Para si e sua família desejo um Natal de Luz! Abençoado e repleto de alegrias.
    AG

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  3. Boa tarde, gostava de ficar com a bela e maravilhosa musica, não consigo saber de quem é maravilhosa voz, será que me pode informar através do meu blog, abrigado
    AG

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  4. Olá amei seu cantinho!!!!!! Seguindo!!!!!!
    Abençoado Natal!!!!!! beijos

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  5. Somos feitos de muitos fragmentos, que se vão ligando e interligando à medida que vamos avançando no nosso caminho.
    Adorei o texto!

    r: Obrigada e igualmente :)
    Beijinhos*

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  6. BOAS FESTAS
    e FELIZ ANO 2016,
    e já agora que a felicidade ande por aí.

    Abraço
    MANUEL

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  7. Olá, Cristina!
    Texto muito bom, gostei e já por aqui fiquei...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  8. Olá Cris,

    Como sempre brutal, gosto da forma como citas Pessoa. Ainda bem que todos nós somos compostos de variados EU's.
    Aguardo por descobrir esse teu EU louco, uma vez que ele anda por aí.
    Beijo

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  9. Olá Cris,

    Aqui te deixo algo meu, para alimentar esse teu EU especial.

    O tempo não pára...
    ______________________

    Ontem em apenas segundos
    Vivi todo um mundo
    Atravessei fronteiras
    Pra chegar a ti
    Estavas na varanda
    Embora a noite já fosse alta
    E a rua estava deserta.
    Parei, olhei para ti
    Fizeste aquele teu sorriso
    O tal que me faz levitar
    E vaguear sem órbita.
    Perdi a noção do tempo
    De elo que separa as eras.
    Esse sorriso deixa-me assim...
    O quanto amo ver-te sorrir
    E assim falar baixinho,
    Quase em murmúrio
    Contar-te os meus segredos
    Expressos através dos olhos
    Que estas coisas do coração
    Não se conseguem explicar
    Assim, ali, fomos um só,
    beijamos as estrelas
    e sonhamos com este amor.

    Carinhoso beijo

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    1. Olá Phil... sem palavras. Simplesmente magnifico. Adorei!!!

      É mesmo isso " O tempo não pára"

      Beijo meu

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  10. Estou totalmente de acordo com esta, sua, reflexão. Brilhante.

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Obrigada pelo carinho da tua visita.