29 de setembro de 2016

Music Box...




Tenho um grande fascínio por caixas de música, há qualquer coisa nelas que encerra uma beleza divina.
São uma metáfora da vida, da essência feminina, são o esplendor, em forma de música, de arte e da imagética feminina.
Quem pega na caixa deixa-se deslumbrar pelo seu mistério, pela sua forma macia e arredondada.
Segura-a com cuidado com as duas mãos, sente-lhe o peso da madeira e não controla o desejo de saber o que vai encontrar lá dentro.
Levanta-lhe a tampa com suavidade e docemente se extasia pelos primeiros acordes que flutuam à sua volta.
E eis que, numa aparição de delicadeza, vulnerabilidade, subtileza, e encanto surge a pequena bailarina.
Ela é singela, delicada e os mais incautos consideram-na frágil, que néscios são… Esta menina, como qualquer mulher, vive a dicotomia entre o ser e o parecer. Esforça-se para estar sempre de vestido vaporoso e cuidado, de cabelo meticulosamente arranjado onde cada fio se encaixa num pequeno totó.
A seda dos seus sapatos brilha a cada movimento e as suas fitas de seda estão encantadoramente enroladas nos seus magros tornozelos.
A sua expressão é séria, mas muito doce, quem olha para ela sente a felicidade que emana ao dançar, sente o amor por estar ali connosco.
Mas a alma da bailarina, ninguém vê, está vedada aos insensíveis e só os olhos de quem verdadeiramente ama, consegue compreender.
A sua alma sofre… castigam-na as dores da vida a dançar, doem-lhe os pés de suportar o seu corpo, amarguram-lhe os braços de tanto querer levitar, rasga-se a carne por não poder engordar, fraturam-se os ossos a cada movimento.
Todos os dias morre mais um bocadinho.
O que a verdadeiramente mata é o esquecimento a que é votada.
Quando a caixa de música é nova, há sempre alguém que diariamente a quer abrir, desfrutar da sua companhia, rejubilar com a sua magia.
No entanto, o tempo vai passando e a pequena bailarina deixa de ter um lugar primordial no coração de quem a possui e que todos os dias se esquece dela, sem se aperceber do sofrimento que causa.
Um dia, a caixa de música deixará de tocar e a singela boneca jamais se movimentará.
O motivo?
As lágrimas que tanto chorou enquanto a caixa esteve fechada e que enferrujou todas as molas que a faziam movimentar.
Tudo na vida tem um tempo certo: há um momento para abrir a caixa de música, outro para escutar a sua melodia e admirar quem dança lá dentro e finalmente, há um tempo para a fechar e não mais abrir!!!


8 comentários:

  1. Adoro também essas caixinhas. Belo etxtp

    Beijo

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Um texto muito belo. Todas nós fomos, em algum tempo, bailarinas de corda na caixinha de som... Gostei imenso da forma como descreves as formas, os movimentos, a música e nos deixas intuir a alma da bailarina. Excelente, mesmo.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  3. Olá Cristina
    Tu descreves com soberba os ciclos de vida delineando os sentires de cada etapa fazendo uma espetacular analogia com esta delicada bailarina da caixinha de música. O texto é magnífico. Parabéns!
    Beijos

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  4. Eu procurei-te! Olha para mim, ali em cima, o penúltimo da lista...

    Um beijo!
    :)))
    :))

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  5. Infelizmente hoje em dia, há muita gente que tem uma vida solitária como essa bailarina da caixinha de música, existir para encantar os outros, presa no seu próprio encantamento.

    Boa semana, Cristina:)

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  6. Analogia perfeita amiga.
    Viver é uma arte que aprendemos em cada dia.
    Saudade daqui,
    Meu terno abraço
    Bjs de paz amiga.

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  7. Obrigado pelo seu recente comentário. E aí tem um videopoema meu http://vieiracaladolivrosvideo.blogspot.pt/2016/10/submerso.html Cumprimentos!

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  8. Um texto lindíssimo... para apreciar esta melodiosa maravilha na forma de palavras... e reapreciar!
    Maravilhosa a analogia entre a caixa de música e a musicalidade da vida!
    Parabéns, por tão bela inspiração!
    Beijinhos! Continuação de uma boa semana!
    Ana

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Obrigada pelo carinho da tua visita.